sexta-feira, 15 de maio de 2015

A Bossa Nova e os impactos de baladas e festinhas sobre a vida da cidade

Um motorista de ônibus não consegue dormir bem porque um bar tocou som alto a noite toda. No dia seguinte, tratou mal os passageiros e acabou batendo o ônibus. Após um plantão, a enfermeira não conseguiu descansar em sua casa porque rolou um sambão no apartamento vizinho. No outro dia, no hospital, distraiu-se e errou a dose da medicação, fazendo o paciente entrar em coma. Um músico, depois de tocar à noite toda, foi para a casa num apartamento calminho do lado do parque, e uma pessoa que curtiu a balada dormiu até tarde num condomínio onde adora sua casinha com quintal. Dormiram bem com os passarinhos e acordaram tarde. À noite, estavam felizes e prontos para outra.



Aqui em Brasília, os músicos e donos de bares e casas noturnas estão em pé-de-guerra com a Lei do Silêncio, que supostamente teria fechado dezenas de bares na cidade. Se fechou, não notei. Sei somente de dois: o Café da Rua 8 (no local foi aberto um outro bar com a mesma proposta e mais uns dois novos bares vizinhos, que também abusam do barulho, mas dentro de um horário que parece ter sido estabelecido - 23hs), e o Balaio Café (que tem, na mesma quadra, outros bares barulhentos - aliás, fui algumas vezes no Balaio e não achei muito barulhento e nem fica muito perto das residências).

Ou seja, apesar do fechamento de alguns estabelecimentos, a maioria continua, novos são abertos. Perto da minha casa, abriu um bar que faz um sambão todos os sábados à tarde. As caixas de som são apontadas em direção aos prédios residenciais. É música de bom gosto, mas a qualidade do som... Bem, não é o pior caso: a música é de raiz, o horário é cedo... Mas boa parte dos vizinhos odeia: sábado à tarde nos prédios aqui nem furar parede pode, quanto mais ficar com música alta a tarde toda e também no início da noite. As pessoas, dentro de casa, querem ouvir outra coisa: querem ouvir sua própria música, assistir filmes, ou simplesmente ter sossego e descansar da semana. Tem gente que trabalhou duro a semana toda e quer descansar. Não têm o direito?

No caso do Balaio, não entendi bem. Não parecia mesmo um bar muito barulhento. Mas é um lugar de frequência LGBT. Desconfio que foi esta a motivação de várias denúncias: o preconceito. O órgão ambiental que faz a fiscalização responde a denúncias: no caso, os preconceituosos devem ter inundado o Ibram com um foco desproporcional sobre o Balaio.

Mas os donos de bares, artistas e boêmios estão aproveitando esse caso para tentar mudar a Lei do Silêncio, que foi aprovada em 2012 e que vem sendo aplicada, aparentemente, de forma seletiva. Pode ser uma questão de resposta a denúncias. Mas há bares que continuam abertos e lugares onde pessoas com som automotivo muito alto continuam fazendo baladinhas privadas apesar das denúncias e centenas de ligações semanais ao 190 (não estou exagerando ao dizer que são centenas), por exemplo, no Calçadão da Asa Norte.

O setor "cultural" (vou chamá-lo assim, apesar de ser apenas o setor "boêmio") diz que centenas de empregos estão sendo perdidos, e que a economia da cidade está sendo prejudicada. No entanto, não dão números.

Como o texto inicial deste post mostra, a conta não é assim tão fácil. Se alguns negócios são prejudicados, trabalhadores mais descansados e bem humorados produzem mais e causam menos acidentes. Pessoas que dormiram melhor adoecem menos, são mais bem humoradas e se tratam melhor. Crianças e idosos são os mais prejudicados pelo barulho noturno nas cidades.

A verdade é que no Brasil tem havido uma escalada do som alto. As pessoas estão meio surdas. O volume do som é cada vez mais alto. Você vai numa festa e sai com o ouvido com um zumbido, sinal que seu tímpano foi machucado.

Perde-se empregos à noite? Talvez. Terminar a noite mais cedo dificilmente acabaria com empregos. Mas ter que aumentar o isolamento acústico das casas noturnas cria novos empregos nas empresas que fazem esse serviço. Trabalhadores (garçons, cozinheiros, seguranças, etc.) indo para casa mais cedo reduz sua espera por raros ônibus nas madrugadas. Pessoas terminando a noite mais cedo bebem menos e causam menos acidentes de trânsito e mortes, e se envolvem menos em violência. Noitadas que começam mais cedo vendem mais comida, dando mais emprego para cozinheiros. Muda-se o perfil, mas segue a diversão.

Acusam de intolerância quem não quer um bar com música alta perto de sua casa. Não é intolerância. Uma passagem pela 408 Norte ou na 412 Norte dá até pena dos vizinhos. No Plano Piloto, algumas quadras (como as citadas) se especializam neste tipo de negócios. É muito barulho, quase todos os dias da semana. Ter alguns bares perto de casa é uma coisa. Outra coisa é ter um setor cultural inteiro. Para que continuem a existir, esses negócios precisam observar algumas regras.

Temos o direito ao sossego. Também queremos diversão, inclusive diversão noturna. Curtir um jazz ou MPB, dançar, etc., estão entre meus gostos. Com a maturidade, filhos, trabalho, etc., tenho menos chances de curtir isso.

É preciso adaptar a boemia para que os seus benefícios sejam maiores que os danos.

Lembre-se dos anos 1960, quando as pessoas se mudavam para apartamentos e precisavam fazer menos barulho nas festinhas. Devido à demanda por silêncio, acabaram inventando a Bossa Nova!

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