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domingo, 6 de outubro de 2013

Quanto nervosismo sobre a coligação da Rede com o PSB!

Quanto nervosismo sobre a coligação da Rede com o PSB! Quantas acusações vazias procurando desqualificar o gesto de Marina e da Rede!

Neste texto, aponto como essas acusações são frágeis, mesmo sendo em muitos aspectos um apoiador das políticas implementadas pelo PT nos últimos 10 anos. 

Primeiro, quando Marina liderou a criação de um partido, acusaram-na de achar que nenhum partido prestava para ela. Agora, que ela diz ter achado um que presta, pelo menos para "encubar" a Rede, criticam isso também.

Primeiro, debocharam do fato de a Rede querer ser um não-partido legalizando-se como partido. Agora que é um não-partido, por não conseguir legalizar-se, criticam isso também.

Acusam Marina de estar ligada ao grande capital só porque tem os donos da Natura e do Itaú na sua base de apoio. Mas e Dilma? E Aécio/Serra? Não têm empresários apoiando? Acusação ridícula de quem chama o Mensalão de caixa 2 e não aguenta ver dois empresários à luz do dia darem sua contribuição.

Queriam que Marina escolhesse uma legenda de aluguel, um partido pequeno (como o PV) ou sem programa (como o PEN), ou ainda um partido típico de oposição, como o PPS. Em vez disso, ela escolheu um partido sólido, com bons políticos, recém saído da base do governo - não porque brigou com o governo, mas porque queria um caminho próprio. Alguns têm a pachorra de acusar essa aliança de ser a mesma coisa que foi com o PV. Não é. É um xadrez sofisticado, de ambas as partes.

Antes, acusavam a Rede de ser dominada por evangélicos. Agora, com o PSB, não dá para fazer esse tipo de acusação.
Alguns acusam a Rede de se fazer de vítima ao lutar no STE para ter seu registro reconhecido. A Rede acha estranho que suas assinaturas tiveram o maior grau de rejeição de assinaturas justamente onde os outros partidos recém criados tiveram o maior grau de validação de assinaturas. Estranho mesmo, já que é o mesmo colégio eleitoral. Mas não deu para ficar se fazendo de vítima, pois o quadro novo mostra que a Rede é ameaça e não vítima.

Mas se tem jogo de vítima, não é só a Marina quem faz. Petistas vivem reclamando do PIG, da Globo, da Veja, do Supremo, do Joaquim Barbosa. Tadinhos, os perseguidos. Os descontentes com o governo, Tucanos e leitores de Veja não cansam de fazer acusações absurdas de que estamos numa ditadura, e dizem que o governo cala todo mundo.

Alguns esbravejavam que a Rede não tinha conseguido o registro por incompetência, e deleitavam-se que Marina ficaria fora das eleições. Agora, morrem de medo de Marina, que não só tem partido, mas tem o PSB, com toda sua estrutura, tempo de TV e militância.  

Acusam Marina de ser de direita, mas com o PSB não vai dar para dizer que sua candidatura é da direita, especialmente quando partidos da base do governo Dilma, como o PR, recebem políticos como o ex-governador do DF, José Roberto Arruda.

Acusam Marina de não ter ideias, de estar baseada em frases feitas. Talvez, mas as frases de Marina são outras. Marina é intelectual refinada, que bebe em fontes diferentes das que estamos acostumados num político. Mas frases feitas não eram comuns no PT? "Fora FMI, fora FHC, reforma agrária já, calote da dívida externa". Muitas propostas nunca viraram ação. E o PSDB? A começar com FHC pedindo para esquecerem o que escreveu até os discursos vazios de hoje, em que pleiteiam serem melhores administradores que os petistas.   

No lançamento da Rede, Marina deu umas pisadas na bola, é verdade. Para que fazer referência ao Chavismo, algo com tantos críticos apaixonados quanto defensores intensos? Não precisava...

É sempre mais difícil querer ser coerente. Quando se defende um ideal e só se cumpre 85%, vem os que não cumprem nem 30% acusar de incoerência sem olhar seu próprio rabo. 

No geral, os parceiros PSB e Rede marcaram vários gols, deixando a torcida adversária nervosinha.  

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O novo partido liderado por Marina Silva 2: Nome e desafios

Marina precisa expandir o discurso e, de certa forma, se posicionar no Século XXI real, ou dizendo isso de outra forma, lidar com o Século XX que ainda não acabou.

Neste vídeo (abaixo), num evento com membros do Movimento pela Nova Política em São Paulo, Marina Silva fala sobre o novo partido. Ela não nega que pretende ser candidata, nem que seu carisma é importante, mas propõe que essa candidatura deve vir para agregar um movimento de pessoas preocupadas com um novo ideal: a sustentabilidade. O partido, na visão dela, não deve surgir a partir de seu carisma. Ela vai usar seu carisma para afirmar que as pessoas não devem se guiar por ele, mas sim por sua responsabilidade com a sociedade, com o planeta, com o futuro. 

Ela não nega os avanços do PT; ela os reafirma e, talvez prematuramente, os dá como vencidos. O PT, partido que a Marina trata com carinho, não teria fracassado em seus ideais, mas sim na sua renovação, e no reconhecimento de uma nova agenda, uma agenda emergencial, tão emergencial quanto a miséria, que é a agenda da sustentabilidade. Segundo a Marina, a sustentabilidade é o ideal do Século XXI, assim como a igualdade foi o do Século XX. 

É um partido que não é partido: é uma "Rede" pela sustentabilidade (veja em 20m19s), que não é proposto por ela, é um clamor do grupo que se agrega em torno dela. Cada um de nós, ela diz, é como uma estrela, que atrai outros em seu redor. Que sejam também estrelas que iluminem. 

O nome do novo partido

As pessoas que propõem o novo partido, ou anti-partido (como dizem alguns) estão discutindo o seu nome. Querem que não tenha nome de "Partido". Para mim, em vez de "Partido", deve se chamar "Rede". A partir das palavras da Marina, uma "Rede da Sustentabilidade". Mas não é qualquer rede, pois é uma organização para atuar na política, isto é, na Nova Política. 

Mas será que existe "Nova Política"? Qualquer coisa que se chame "política" já nasce velha (e se der certo, será velha em poucos anos). Assim, qualquer coisa com "Nova Política" no nome já nasce datada, com obsolescência programada. 

Além disso, o termo "novo" é meio vazio de significado. Um caipira diria assim sobre o novo: _ Tudo bem, é "novo", mas é bão? Se não for bão eu num quero. 

Precisamos de outra palavra para a política, que vem de polis, que quer dizer cidade. Essa outra palavra é "cidadania". O cidadão é responsável, exerce o seu dever e seus direitos, atua a partir de sua consciência. E o político? Tem como renovar isso? 

Não tem. Vamos ser cidadãos! Se formos criar uma nova organização para participar das eleições, não devemos ir como políticos, mas sim como cidadãos. Então, não é um partido, é uma rede. Não é uma rede política, é uma rede de cidadãos, uma Rede Cidadã. E o que agrega essa rede é sua preocupação com a sustentabilidade, segundo a Marina. Então é uma "Rede Cidadã pela Sustentabilidade". Quer uma sigla? RECIS. Esta seria minha sugestão para este grupo que procura um caminho para participar das eleições de forma cidadã.   




O problema de ser a Rede Cidadã pela Sustentabilidade


Na minha visão, neste discurso do vídeo Marina comete dois erros: 

1) Não colocar a pobreza e a miséria no centro de seu discurso e, aparentemente, dar esses desafios como vencidos pelos governos de Lula e Dilma. 
2) Não lidar com os maiores desafios da população ascendente, que muitas vezes conflitam com a sustentabilidade. 

Apesar dos avanços dos últimos anos na área social  (que costumo chamar de revolução), os desafios sociais do Brasil são ainda imensos, mesmo com a ascensão da "nova classe média". O governo atual está correto em estabelecer uma meta de erradicar a miséria, que é intolerável, e focar na redução da pobreza.

Mas além disso, há vários desafios que essa própria ascensão têm criado, até mesmo para a agenda da sustentabilidade, mas que, à primeira vista, deslocam a sustentabilidade "para depois".
Se encontramos um caminho para resolver a miséria nos governos Lula e Dilma (mesmo que ainda falte bastante para isso acontecer), estamos à beira de vários apagões cuja solução não será fácil, ainda mais de forma sustentável.

O primeiro desafio será o apagão da produtividade. Com pleno emprego, o PIB do Brasil parou de crescer, e as medidas para o seu crescimento tendem a gerar inflação. Isso ocorre porque não conseguimos aumentar nossa produtividade, e isso depende de coisas que não mudam muito rapidamente: educação e capacitação, mentalidade corporativista, corrupção generalizada nos setores público e privado, etc. Também será muito importante lidar com a infraestrutura (ver abaixo), tema de conflitos com a sustentabilidade que defendemos.

O segundo desafio importante é o da saúde: a nova classe média tenta escapar dos serviços públicos de saúde e provoca o colapso dos planos de saúde, mostrando que, quando começamos a democratizar o acesso a saúde, não temos capacidade de atendimento, e a solução tampouco é fácil ou rápida (felizmente, não parece em conflito com a sustentabilidade), pois envolve a formação de novos profissionais de saúde, e isso leva tempo, e os que temos já não são nenhuma maravilha.

O terceiro apagão é o da infraestrutura, que vem sendo demandada além das expectativas e cuja expansão conflita diretamente com a questão da sustentabilidade, pelo menos enquanto novos paradigmas de transporte e geração de energia não se mostram viáveis na escala que o Brasil precisa, ou enquanto não tivermos capacidade de investimento para implementar, por exemplo, transporte público de qualidade. 

Por fim, o quarto apagão importante é o da segurança pública, que sucumbe ao crime organizado, apesar de alguns avanços feitos no Rio de Janeiro em algumas áreas pacificadas. 

Esses desafios são muito importantes pois, enquanto o Brasil melhora nas demais áreas, incluindo na área ambiental (por enquanto) com índices cada vez mais baixos de desmatamento (ainda que os números absolutos sejam elevados) e melhoria do saneamento (ainda que lento), nessas áreas ameaçadas de apagão (ou já em colapso), e em conflito com a sustentabilidade, o Brasil piora ano a ano. 

Marina precisa expandir o discurso e, de certa forma, se posicionar no Século XXI real, ou dizendo isso de outra forma, lidar com o Século XX que ainda não acabou. Podemos argumentar que a sustentabilidade inclui tudo, ou que sem o meio ambiente equilibrado podemos perder até os avanços que já fizemos, mas entrar na disputa política só com a bandeira da sustentabilidade é como entrar num jogo de futebol só com o atacante. Pode até fazer um gol inicial, mas não ganha o campeonato.

Por isso, Marina, ou melhor, o novo partido, deveria deixar claro que sustentabilidade é seu diferencial, é aquilo que o posiciona à frente, que agrega os participantes, mas que não é a sua única preocupação nem sua única competência.