quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O novo partido liderado por Marina Silva 2: Nome e desafios

Marina precisa expandir o discurso e, de certa forma, se posicionar no Século XXI real, ou dizendo isso de outra forma, lidar com o Século XX que ainda não acabou.

Neste vídeo (abaixo), num evento com membros do Movimento pela Nova Política em São Paulo, Marina Silva fala sobre o novo partido. Ela não nega que pretende ser candidata, nem que seu carisma é importante, mas propõe que essa candidatura deve vir para agregar um movimento de pessoas preocupadas com um novo ideal: a sustentabilidade. O partido, na visão dela, não deve surgir a partir de seu carisma. Ela vai usar seu carisma para afirmar que as pessoas não devem se guiar por ele, mas sim por sua responsabilidade com a sociedade, com o planeta, com o futuro. 

Ela não nega os avanços do PT; ela os reafirma e, talvez prematuramente, os dá como vencidos. O PT, partido que a Marina trata com carinho, não teria fracassado em seus ideais, mas sim na sua renovação, e no reconhecimento de uma nova agenda, uma agenda emergencial, tão emergencial quanto a miséria, que é a agenda da sustentabilidade. Segundo a Marina, a sustentabilidade é o ideal do Século XXI, assim como a igualdade foi o do Século XX. 

É um partido que não é partido: é uma "Rede" pela sustentabilidade (veja em 20m19s), que não é proposto por ela, é um clamor do grupo que se agrega em torno dela. Cada um de nós, ela diz, é como uma estrela, que atrai outros em seu redor. Que sejam também estrelas que iluminem. 

O nome do novo partido

As pessoas que propõem o novo partido, ou anti-partido (como dizem alguns) estão discutindo o seu nome. Querem que não tenha nome de "Partido". Para mim, em vez de "Partido", deve se chamar "Rede". A partir das palavras da Marina, uma "Rede da Sustentabilidade". Mas não é qualquer rede, pois é uma organização para atuar na política, isto é, na Nova Política. 

Mas será que existe "Nova Política"? Qualquer coisa que se chame "política" já nasce velha (e se der certo, será velha em poucos anos). Assim, qualquer coisa com "Nova Política" no nome já nasce datada, com obsolescência programada. 

Além disso, o termo "novo" é meio vazio de significado. Um caipira diria assim sobre o novo: _ Tudo bem, é "novo", mas é bão? Se não for bão eu num quero. 

Precisamos de outra palavra para a política, que vem de polis, que quer dizer cidade. Essa outra palavra é "cidadania". O cidadão é responsável, exerce o seu dever e seus direitos, atua a partir de sua consciência. E o político? Tem como renovar isso? 

Não tem. Vamos ser cidadãos! Se formos criar uma nova organização para participar das eleições, não devemos ir como políticos, mas sim como cidadãos. Então, não é um partido, é uma rede. Não é uma rede política, é uma rede de cidadãos, uma Rede Cidadã. E o que agrega essa rede é sua preocupação com a sustentabilidade, segundo a Marina. Então é uma "Rede Cidadã pela Sustentabilidade". Quer uma sigla? RECIS. Esta seria minha sugestão para este grupo que procura um caminho para participar das eleições de forma cidadã.   




O problema de ser a Rede Cidadã pela Sustentabilidade


Na minha visão, neste discurso do vídeo Marina comete dois erros: 

1) Não colocar a pobreza e a miséria no centro de seu discurso e, aparentemente, dar esses desafios como vencidos pelos governos de Lula e Dilma. 
2) Não lidar com os maiores desafios da população ascendente, que muitas vezes conflitam com a sustentabilidade. 

Apesar dos avanços dos últimos anos na área social  (que costumo chamar de revolução), os desafios sociais do Brasil são ainda imensos, mesmo com a ascensão da "nova classe média". O governo atual está correto em estabelecer uma meta de erradicar a miséria, que é intolerável, e focar na redução da pobreza.

Mas além disso, há vários desafios que essa própria ascensão têm criado, até mesmo para a agenda da sustentabilidade, mas que, à primeira vista, deslocam a sustentabilidade "para depois".
Se encontramos um caminho para resolver a miséria nos governos Lula e Dilma (mesmo que ainda falte bastante para isso acontecer), estamos à beira de vários apagões cuja solução não será fácil, ainda mais de forma sustentável.

O primeiro desafio será o apagão da produtividade. Com pleno emprego, o PIB do Brasil parou de crescer, e as medidas para o seu crescimento tendem a gerar inflação. Isso ocorre porque não conseguimos aumentar nossa produtividade, e isso depende de coisas que não mudam muito rapidamente: educação e capacitação, mentalidade corporativista, corrupção generalizada nos setores público e privado, etc. Também será muito importante lidar com a infraestrutura (ver abaixo), tema de conflitos com a sustentabilidade que defendemos.

O segundo desafio importante é o da saúde: a nova classe média tenta escapar dos serviços públicos de saúde e provoca o colapso dos planos de saúde, mostrando que, quando começamos a democratizar o acesso a saúde, não temos capacidade de atendimento, e a solução tampouco é fácil ou rápida (felizmente, não parece em conflito com a sustentabilidade), pois envolve a formação de novos profissionais de saúde, e isso leva tempo, e os que temos já não são nenhuma maravilha.

O terceiro apagão é o da infraestrutura, que vem sendo demandada além das expectativas e cuja expansão conflita diretamente com a questão da sustentabilidade, pelo menos enquanto novos paradigmas de transporte e geração de energia não se mostram viáveis na escala que o Brasil precisa, ou enquanto não tivermos capacidade de investimento para implementar, por exemplo, transporte público de qualidade. 

Por fim, o quarto apagão importante é o da segurança pública, que sucumbe ao crime organizado, apesar de alguns avanços feitos no Rio de Janeiro em algumas áreas pacificadas. 

Esses desafios são muito importantes pois, enquanto o Brasil melhora nas demais áreas, incluindo na área ambiental (por enquanto) com índices cada vez mais baixos de desmatamento (ainda que os números absolutos sejam elevados) e melhoria do saneamento (ainda que lento), nessas áreas ameaçadas de apagão (ou já em colapso), e em conflito com a sustentabilidade, o Brasil piora ano a ano. 

Marina precisa expandir o discurso e, de certa forma, se posicionar no Século XXI real, ou dizendo isso de outra forma, lidar com o Século XX que ainda não acabou. Podemos argumentar que a sustentabilidade inclui tudo, ou que sem o meio ambiente equilibrado podemos perder até os avanços que já fizemos, mas entrar na disputa política só com a bandeira da sustentabilidade é como entrar num jogo de futebol só com o atacante. Pode até fazer um gol inicial, mas não ganha o campeonato.

Por isso, Marina, ou melhor, o novo partido, deveria deixar claro que sustentabilidade é seu diferencial, é aquilo que o posiciona à frente, que agrega os participantes, mas que não é a sua única preocupação nem sua única competência.   

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A criação de um novo partido liderado por Marina Silva


Não adianta juntar nesse novo partido uma porção de indignados com os mensalões, os fisiologismos e a corrupção. Tem que juntar as pessoas com as ideias certas, a capacidade de negociação, a capacidade de execução, e a ética

A imprensa dá como certo que Marina Silva já decidiu que vai criar um novo partido, com base no Movimento Social Nova Política, um movimento suprapartidário lançado no ano passado por Marina, que após obter 20 milhões de votos nas eleições presidenciais de 2010, não ter se aliado a nenhum dos dois candidatos classificados para o segundo turno, ter decidido deixar o Partido Verde, serviu de canal para a expressão, amadurecimento e manutenção do grupo político que ousou uma candidatura diferente: seu "capital político".

Além do Movimento Nova Política, a discussão sobre o Código Florestal também serviu para aglutinar os aliados, manter uma polarização com o governo e destacar Marina na ausência de um cenário eleitoral. Apesar disso, Marina é muito coerente em seu discurso e ações e não dá para afirmar que sua atuação em relação ao Código foi somente estratégia política para 2014. Na verdade, a questão do Código Florestal era parte do centro da atuação política da ex-candidata, ex-senadora e ex-Ministra do Meio Ambiente, então, não dava para ela ficar só assistindo.

Agora, falta pouco mais de um ano para o clima da disputa presidencial esquentar, um efeito estufa eleitoral. O que representará a candidatura de Marina e seu novo partido?


Em 2010, aderi à sua campanha e acredito que as propostas e jeito de fazer política de Marina realmente oxigenaram a disputa e forçaram propostas importantes para dentro das propostas dos candidatos do segundo turno, e da própria atuação do governo na área ambiental, especialmente na Política sobre Mudança do Clima. Mas a presença da Marina na disputa também teve "efeitos colaterais", criando fenômenos indesejáveis para a democracia brasileira:

  1. A atração que sua candidatura exerceu sobre os evangélicos, que atuaram como uma força política, ameaçando o aspecto laico de suas propostas, e aglutinando uma série de ideias conservadoras que depois foram utilizadas por partidários do candidato Serra num jogo eleitoral sujo e difamador. Entre as propostas conservadoras que foram reforçadas na disputa estavam aquelas que limitariam avanços para os homossexuais e os direitos reprodutivos das mulheres. 
  2. A personalização da disputa, já que Marina se apoiou em um partido pequeno, sem expressão, cuja força se resumia ao próprio carisma da candidata. Seria duvidoso que essa força política pudesse se organizar sem Marina, enquanto o PT ou o PSDB se organizariam mesmo sem Dilma, Lula, Serra ou Aécio. São forças institucionalizadas, enquanto a candidatura de Marina dependia fundamentalmente de seu carisma. 
Dava pena de ver esses efeitos, já que, conhecendo Marina, sei que ela sustenta valores que respeitam a diversidade (e tem inteligentes interpretações religiosas para conciliar esses valores com suas convicções). Ela dá valor aos processos e prefere construir instituições. Mas seu carisma às vezes sufoca isso tudo e no evento de agradecimento dela aos apoiadores de Brasília havia pelo menos oito pastores evangélicos entre pouco mais de 50 pessoas na sala, todos tratados com destaque e com direito à palavra.

Então, o que esperar de sua candidatura e de seu partido? Há vários perigos. No contexto atual, o maior risco é que a candidatura de Marina seja a candidatura da direita, que seja "sequestrada" por conservadores, que sirva apenas para tirar votos da candidatura de Dilma. A imprensa deve dar força para essa candidatura, uma vez que parece engajada em um processo para desgastar a imagem do atual governo. Para quem não gosta do governo, seria ótimo. Mas eu gosto, no geral, dos governos do PT, que produziram avanços inegáveis no combate à pobreza e à miséria.

Alguém partidário da Marina vai dizer que ela não está à direita ou à esquerda, mas à frente. Mas isso também não será fácil. Se for contra o casamento civil para homossexuais, contra o aborto, se permitir interferência religiosa nos programas do governo, estará não somente à direita de Dilma (atraindo os partidários do PSDB, do DEM e do chamado PIG - imprensa que hoje se coloca para detonar o governo Dilma e o PT), mas também estará atrás. Para estar à frente, não basta defender energia eólica e a conservação das florestas. As questões do Brasil são maiores que somente as questões ambientais e Marina deverá ser, como presidente, mais que uma boa Ministra do Meio Ambiente. Ela sabe disso, como mostrou em sua campanha em 2010, mas o magnetismo de sua candidatura vai atrair aliados que têm como foco essas questões. Se estiver à direita, e for a principal opção, vai atrair o conservadorismo.

Por outro lado, se estiver à esquerda, Dilma é quem vai atrair esse público, juntamente com os anti-meio ambiente. Ficaria uma identidade mais harmônica se Marina e o meio ambiente estivessem à esquerda, e não à direita. À direita deveria ficar o conservadorismo ambiental, econômico e moral. Acho que uma candidatura Marina em 2014 bagunça tudo. É provável que seja conservadora nos valores morais e na economia, e avançada em relação ao meio ambiente e às práticas políticas. Deixará Dilma avançada nos valores morais e na economia, e atrasada em relação ao meio ambiente e às práticas políticas. Situação difícil! Para mim, gostaria de ver Dilma e o PT se moverem à esquerda e à frente, deixando para trás o PMDB, os ruralistas e as velhas práticas políticas, e aproximando-se de uma visão avançada em relação ao meio ambiente. Não deve acontecer.

Por isso, acredito que Marina acerta na criação de um partido. Há espaço para isso. Os partidos estão desgastados e sem credibilidade. As pessoas precisam de espaços de reflexão, organização política e encaminhamento de suas propostas. O único partido em que realmente havia uma institucionalização da participação democrática era o PT, e isso se perdeu em grande parte. Então o espaço existe, se for isso que a "nova política" significa.

A perspectiva, porém, não deve ser, necessariamente, de ter Marina presidente em 2015, mas sim de ter um novo partido em 2014, com propostas, capacidade de negociação, e possibilidade de alianças com outros partidos. Deve ser uma política ética sem cometer o erro petista de pretender ser o dono da ética. E não basta ser o campeão da honestidade e da ética. É melhor ser o campeão dos resultados para a população, ser o campeão da efetividade, mesmo sem a perfeição impossível. Então, não adianta juntar nesse novo partido uma porção de indignados com os mensalões, os fisiologismos e a corrupção. Tem que juntar as pessoas com as ideias certas, a capacidade de negociação, a capacidade de execução, e a ética. É um desafio bem maior do que uma marcha contra a corrupção e, se for só isso, é melhor se juntar às marchas organizadas pelo Facebook.

Por fim, com um governo com enorme aprovação como o governo petista, as propostas para o próximo governo não devem ser, à princípio, uma negação das propostas atuais. Ao contrário, devem construir sobre o que vem sendo feito até agora, desenvolvendo seu potencial positivo completo. Um exemplo é redução da carga tributária: num país com a enorme carga de impostos como o Brasil, há a oportunidade de reduzi-la estrategicamente, favorecendo a sustentabilidade e a justiça social. Só assim, estaria à frente.