domingo, 18 de agosto de 2013

Tentando entender os protestos

Tenho visto muita gente explicando os protestos. Uns atribuem a problemas do Brasil, a incompetência no governo federal, à corrupção e à volta da inflação. Outros atribuem a problemas regionais, como questões com os governadores do Rio e de São Paulo. Lula chegou a atribuir os protestos à melhoria do Brasil, e que seria natural querer sempre mais. Essas explicações não me convencem. Primeiro, a corrupção, embora alta, nunca foi tão combatida. Segundo, a inflação não tem variado além do normal dos últimos 20 anos. Terceiro, problemas regionais não explicam manifestações nacionais. Quarto, se os problemas fossem só do Brasil, não estariam ocorrendo manifestações com dinâmicas semelhantes nos EUA, Europa, países árabes e Turquia. Quinto, a explicação do Lula, bem, também não explica as manifestações só agora, em 2013.

Alguém vai me dizer: você está dizendo que não há motivos para protestar? Não é isso. Claro que há. Mas por que agora? Por que no Brasil com pleno emprego, inflação sob controle, corruptos sendo condenados e indo para a cadeia, milhões de pessoas deixando de ser miseráveis ou pobres? Não seria motivo para festa, em vez de protesto? Então o que é que explica as manifestações?


Essas manifestações (nos EUA, Europa, países árabes, Turquia e no Brasil) têm algumas coisas em comum:

  1. Começam com questões pontuais e se alastram, ampliando o leque das questões, o número de participantes e os locais onde acontecem;
  2. São combinadas pela Internet (redes sociais);
  3. São apartidárias, sem lideres claros, sem comando, em rede. 
  4. Começam pacíficas mas descambam para a violência e o confronto com a polícia. As pessoas que participam de forma mais agressiva fazem um quebra-quebra parecido, com as mesmas táticas, e estão sempre mascaradas. 
  5. O confronto com a polícia (documentado pela internet) cria indignação e atrai a solidariedade e mais mais participantes. O confronto no fim é estratégico, pois quem participou no começo se identifica com os agredidos e isso alimenta a próxima manifestação. 
  6. A imprensa, que vem se tornando cada vez mais parcial e tendenciosa, foi desacreditada pela Internet. Então, não adianta chamar os manifestantes de arruaceiros ou baderneiros, mesmo se for isso mesmo. As pessoas acreditam mais nos vídeos postados nas redes.
  7. Não há como negociar demandas pois, quando há, são ou indefinidas ou inviáveis. A indefinição das demandas é também estratégica, pois não há consenso possível entre os manifestantes. 
O que explica isso? Não é a situação a que o país chegou (o país está melhor). É algo diferente, externo a essa situação. Vamos imaginar que você tem uma vasilha com líquido inflamável, mas não há uma fonte de fogo ou faísca. O potencial para pegar fogo está lá, mas não pega. Até que alguém acenda um fósforo e jogue na vasilha... Mas vamos dizer que, antes disso, viesse alguém e tirasse um pouco do líquido, e até jogasse um pouco de água nele, mas ainda ficasse o potencial inflamável. Quando aparecesse a chama, o líquido pegaria fogo. Eu acho que foi algo semelhante a isso que aconteceu.

Alcançamos uma massa crítica em que duas condições foram alcançadas:
  1. A internet está acessível a uma parcela muito significativa da população dos países onde os protestos vêm acontecendo. Isso favorece o engajamento em causas, a convocação de manifestações, a troca de informações sobre as táticas e os resultados, e a comoção quando a violência acontece.  
  2. Um grupo grande de novos ativistas que rejeitam o sistema político estão se formando para agir por diversas causas. Eles garantem que as manifestações aconteçam bem no início e, em alguns casos, acabem mal. O despreparo da polícia, em alguns casos, e a capacidade de manipulação da polícia, em outros casos, favorecem a violência contra e pelos ativistas. 
Essas duas condições são o fósforo aceso que coloca fogo nos povos desses países, que já eram inflamáveis (e continuam inflamáveis no Brasil, apesar das melhorias dos últimos 20 anos e da ênfase social dos últimos 10). 

Vão continuar? Vão. A Internet está aí, com as pessoas divulgando, além de verdades e denúncias importantes, informações falsas, que geram medo, revolta, raiva e vontade de fazer alguma coisa. Hoje, os políticos precisam entender que o povo sabe o que eles fazem de ruim (e imaginam que é pior ainda). É uma mudança qualitativa importante. 

Ainda, é preciso entender os novos ativistas. Suas propostas em geral não são capazes de mobilizar a maioria da população. Mas eles sabem jogar com a internet, nasceram com a rede, trocam informações sobre ativismo globalmente. Suas táticas são adaptativas e difíceis para os governos lidarem. 

O fósforo continua aceso e ameaçando cair na vasilha com líquido inflamável. É essencial diminuir a inflamabilidade do líquido, isto é, melhorar as condições de vida, dos serviços públicos, e adotar estilos de governo mais austeros, sem luxos, com muita consideração pelo dinheiro público. Não importa que as políticas públicas deem resultados. Cada político deve imaginar que há uma câmera filmando seus passos no dia-a-dia e o os impactos de suas decisões, e que o mundo todo está vendo tudo o que ele faz. É quase verdade, pois todo mundo tem uma câmera no celular e uma conta na Internet para  publicá-lo.   

segunda-feira, 8 de julho de 2013

sábado, 6 de julho de 2013

Reforma política e plebiscito: a quem (não) interessa?

Por que uma reforma política agora, valendo para 2014, não interessa à Marina (Rede), ao PSDB e ao PSB? Por que pode interessar ao PT se a popularidade de Dilma baixar muito?

Uma reforma política agora deverá acabar com a reeleição. Se isso acontecer, Dilma teria a desculpa de ser substituída por Lula sem que se precisasse justificar a troca de candidatos pelo PT. Se a popularidade de Dilma continuar caindo, seria bom para o PT poder trazer Lula de volta à cena. Para o PSDB, Marina e PSB, isso seria péssimo. Acham que Lula seria imbatível. Para eles, o melhor candidato seria a Dilma.

Para Marina, a reforma traz ainda mais riscos, pois regras dificultando a criação de seu partido já foram tentadas e devem surgir na reforma, pois um dos problemas que temos é o excesso de partidos. Então, ninguém quer a reforma política já, só o PT, e as razões de todos parecem ser pura estratégia eleitoreira.

E para o país? O que interessa? Não haveria tempo para uma reforma política a partir de plebiscito já para 2014. Mesmo que houvesse, e mesmo tendo as diretrizes do plebiscito, não seria bom que justamente este Congresso cheio de problemas fizesse a reforma. O melhor seria que se fizesse um plebiscito em 2014, junto com a eleição do novo Congresso, o criaria a demanda para que partidos e candidatos se posicionem em relação às questões do plebiscito, se comprometendo de votá-las quando eleitos.

A reforma resultante seria aplicada já nas eleições municipais de 2016. Entretanto, outras questões poderiam ser resolvidas já para 2014, simplesmente votando alguns itens da reforma em que já se tem consenso.

Bem, esta é minha impressão até o momento, sujeita a mudanças...

terça-feira, 2 de julho de 2013

Lula não se aposentou por invalidez em razão de ter perdido um dedo da mão

É mentira que Lula tenha se aposentado por invalidez em razão
de acidente de trabalho. 
Tenho visto esta imagem circular na minha rede, alegando que Lula se aposentou por invalidez em 1988 e que isso teria ocorrido por causa de ele ter perdido o dedo num acidente de trabalho. É uma calúnia, bem maldosa, envolvendo um acidente trágico, e quem a inventou poderia perder seu dedo ou parte ainda mais importante do corpo.

Na verdade, Lula se aposentou sim em 1988, por ter defendido os direitos dos trabalhadores contra a Ditadura Militar que vigorou entre 1964 e 1984, aposentadoria esta que foi concedida como direito garantido pela Constituição de 1988 a todos os que foram perseguidos e tiveram seus direitos negados pela Ditadura. Essa informação pode ser confirmada neste link do Ministério Público: http://noticias.pgr.mpf.mp.br/noticias/noticias-do-site/copy_of_geral/aposentadoria-de-anistiado-concedida-a-lula-e-regular

"Baseado nas informações fornecidas pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), Ministério do Trabalho e do Ministério da Justiça, o procurador da República no Distrito Federal, Peterson de Paula Pereira, verificou que o presidente Lula foi considerado anistiado político em razão da cassação de seus direitos sindicais, ocorrido em abril de 1980, e por ter sido destituído do cargo de presidente dos Sindicatos dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo – SP, por ato de exceção. Comissão Especial de Anistia, do Ministério da Justiça, deferiu, de forma unânime, a anistia ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em 20 de abril de 1993, foi publicado, no Diário Oficial da União, ato do então ministro do Trabalho, declarando Luiz Inácio Lula da Silva como anistiado político. Com base na concessão de anistia, deu-se entrada no pedido de aposentadoria excepcional de anistiado, pela via administrativa, o qual foi deferido com data retroativa a 5 de outubro de 1988. Sendo assim, a concessão da aposentadoria, segundo estes requisitos, cumpriu o que determina a Constituição de 1988, que concede anistia aos que, no período de 18 de setembro de 1946 até a data da promulgação da Constituição, foram atingidos, em decorrência de motivação exclusivamente política, por atos de exceção, institucionais ou complementares, asseguradas as promoções, na inatividade, ao cargo, emprego, posto ou graduação a que teriam direito se estivessem em serviço ativo."

sábado, 29 de junho de 2013

Dilma caiu feio na pesquisa, e outros subiram. O que isso quer dizer?

Ilustração do site Congresso em Foco
Pesquisa do Datafolha mostra queda das intenções de voto em Dilma Rousseff e que os seus potenciais adversários subiram na preferência do eleitor. O que isso quer dizer?

Dilma caiu 21 pontos. Marina cresceu 7. Aécio, 3. Eduardo Campos, 1. Margem de erro de 2%. Somando, os adversários receberam 11 (+ ou - 2) dos 21 pontos que Dilma perdeu. Dá para cantar vitória?

Não. Pelo menos 10 % (+ ou - 2) foram para ninguém. Ou seja, todos enfrentam agora a rejeição aos políticos. O eleitor não quer papo com esses candidatos, seja Dilma, seja seus adversários. Pelo menos, não agora. Interessante é que Campos já vinha subindo lentamente, provavelmente mais um resultado de o eleitor conhecê-lo do que de uma mudança de ideia sobre Dilma. Da mesma forma, Aécio, que deve estar faturando sobre os indecisos, vai se deixando conhecer. Marina, sim, pode ter recebido votos de Dilma: até 7% (+ ou - 2)!

Ou seja, houve migração de eleitores de Dilma para Marina, mas boa parte dos eleitores de Dilma ainda estão por aí sem candidato. Dificilmente irão para Aécio. Poderão voltar para Dilma, ou ir para Marina ou Eduardo Campos. Ou poderão continuar rejeitando os políticos.

É interessante que a intenção de votos para Dilma coincide exatamente com a proporção dos brasileiros que acham que o governo é ótimo/bom. Ou seja, os que acham o governo regular (47%) não estão dizendo ainda que votarão na presidente. Mas a maioria vai, mesmo que neste momento diga que não. Especulando, então, embora a pesquisa aponte 30%, a intenção real de voto em Dilma, se a eleição fosse hoje, seria de pelo menos 40%. Se Campos não se candidatar, uns 45%, sobrando 42% para Marina e Aécio. Então, se a eleição fosse hoje, Dilma ainda ganharia no primeiro turno.

Também é interessante notar que a maior adversária de Dilma é Marina. Marina passa a credibilidade de uma política honesta, que é o que o eleitor deseja. Se partido em formação, ao pedir assinaturas para apoiar o registro, está fazendo campanha política, por tabela, uma vez que Marina é a única figura de expressão. E o que Marina e o Rede Sustentabilidade propõem? Uma agenda de reforma política e a agenda da sustentabilidade.

A agenda da reforma política vai se esvaziar quando a reforma política for concluída. Restará a agenda da sustentabilidade. Então, petistas, eis onde deveria estar seu foco (além da reforma política): sustentabilidade.



sexta-feira, 28 de junho de 2013

O dragão também acordou? A inflação está "de volta"? O poder da mídia sobre nossas percepções.

Você ouve todo dia que a inflação está fora de controle, certo? Que o governo é gastão e que por isso a inflação está voltando. Você também vê o PSDB e o DEM na TV e nos jornais se colocando como os reis do controle da inflação, certo? E a mídia confirmando isso tudo, né?

Viu o comentarista da Globo dizer que o governo nem poderia atender parte das reivindicações das manifestações pelo Brasil, pois isso implicaria em gastos e gastos geram inflação?

Será que não foi só o Brasil que acordou? Será que o dragão também? A inflação está de volta? 

Até eu já estava acreditando... mas aí, pesquisei um pouquinho, e veja o que descobri: mesmo que a inflação fique mais alta, em torno dos 6%, será ainda menor que a média da época de FHC, quando chegou a 12%! Na era Lula, foi caindo, até 3% e depois ficar oscilando entre 4,3% e 5,9%. Veja o gráfico abaixo e diga, em qual período a inflação esteve controlada?

Fonte da ilustração: http://hcinvestimentos.com/2011/02/21/ipca-igpm-inflacao-historica/
Fonte dos dados: IBGE
No período FHC, a inflação variava muito, mas geralmente estava bem acima de 5 ou 6%: 22% em 1995 (vamos dar um desconto, pois era o primeiro ano do Plano Real), mas quase 10% em 1996, 9% em 1999, 7,6% em 2001 e, pasmem!, 12,5% em 2002 (último ano do mandato, com juros nas alturas, lembra?). 

Nos governos Lula e Dilma, a inflação foi caindo, com 9,3% no primeiro ano (dê um desconto aí, pois estava-se tentando controlar o dragão que acordou no governo anterior), baixando para 7,6%, 5,7%, 3,1%, e depois retomando um pouco, e variando desde então entre 4,3% e 6%. Agora, a inflação anda resistindo nos 6%. Onde está o descontrole? Ah, você vai ver: os especuladores perderam o controle da taxa de juros: 


Fonte da ilustração: Blog Valores Reais

O que se vê na figura acima? Que a inflação foi controlada na marra no governo FHC, com juros muito altos, e que a partir dos governos Lula e Dilma os juros foram caindo, e que são menos da metade dos juros praticados em bons anos de inflação no governo FHC. Então, não somente a inflação está controlada, mas os juros também! 

Claro que temos que reconhecer o papel do FHC no governo Itamar e em seu próprio no controle da inflação herdada dos anos anteriores. Mas é uma questão de justiça reconhecer que o PT vem sendo não só um bom guardião deste legado, mas que o tem aprimorado significativamente.

Por exemplo, veja que FHC inventou o regime de metas da inflação em 1999, mas em 4 anos em que o regime vigorou em seu governo, só conseguiu ficar dentro da meta em dois anos. Já o PT, em 10 anos de governo, só esteve fora da meta no primeiro ano: 

Fonte da ilustração: http://hcinvestimentos.com/2011/02/21/ipca-igpm-inflacao-historica/
Fonte dos dados: Banco Central
Então, quem são os reis do controle da inflação? Quem sabe domar esse dragão no dia-a-dia (sem ter que queimar o reino com altas taxas de juros)? 

É impressionante que a mídia fique repetindo mentiras com a esperança de que se tornarão verdade. Na verdade, é revoltante! Temos direito à informação imparcial, equilibrada. Esse direito é ameaçado quando grandes veículos entram em uníssono repetindo versões parciais e dando mais valor a versões que aos fatos., e induzindo os pequenos veículos a reproduzir as mesmas versões.

Também é impressionante que o governo não saiba explicar bem fatos tão simples, e fique vítima dessas versões tão facilmente desmontáveis! Sua comunicação precisa melhorar muito!
  

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Governo quer plebiscito e oposição quer referendum. Por quê?

Governo quer plebiscito e oposição quer referendum. Oposição diz que governo busca tirar o foco das reivindicações das manifestações. Como assim? Uma das reivindicações é a Reforma Política! Dizem que é golpe. Como assim? É uma reivindicação do povo! Dizem que é complexo demais para perguntar ao povo. Como assim? Então o povo é burro? Dizem que as questões são complexas e são tantas que nem sabem dizer quais são. Como assim? Com 7 a 10 questões, definidas há décadas, se resolve. Dizem que é preciso ouvir as ruas. Como assim? Por que são contra então ouvir as ruas e fazer a reforma?

O interesse do governo, obviamente, é retirar a pressão das ruas de suas costas. Mas não é só isso. Na busca de se dar bem no atual sistema político, o PT tem se desfigurado e tem sua legitimidade muito ameaçada. A reforma política é essencial para a sobrevivência e resgate do PT.

O governo se arrisca, porém. E se o povo responder que não quer reeleição? Quem será o candidato do PT? Lula, novamente?

Mas e a oposição? O que tem a perder com o plebiscito e a reforma? Querem um PT enfraquecido, a possibilidade de poder reeleger governadores e prefeitos, e impedir que Dilma seja a líder que, como presidente, deveria ser. Se o plebiscito emplaca, perdem tudo isso.